{"id":8624,"date":"2013-11-07T09:19:11","date_gmt":"2013-11-07T12:19:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.hariovaldo.com.br\/site\/?p=8624"},"modified":"2013-11-07T11:57:01","modified_gmt":"2013-11-07T14:57:01","slug":"a-carta-de-ervalia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.hariovaldo.com.br\/site\/2013\/11\/07\/a-carta-de-ervalia\/","title":{"rendered":"A Carta de Erv\u00e1lia"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" alt=\"\" src=\"http:\/\/perlbal.hi-pi.com\/blog-images\/391811\/mn\/1270783522.jpg\" width=\"344\" height=\"265\" \/><\/p>\n<p>Reproduzo aqui a singela missiva que recebi do amant\u00edssimo irm\u00e3o Jean-Pierre, por julg\u00e1-la adequada para o presente momento que vivemos como testemunho de f\u00e9 e esperan\u00e7a no futuro da na\u00e7\u00e3o. Ei-la:<\/p>\n<blockquote><p><em>&#8220;Marquis Jean-Pierre-George de Lamourette-Courbeaux-Chablis (ou, tout court, Chach\u00e1, chez les amis \u2013 evidemment \u2013 no momento envolvido na produ\u00e7\u00e3o de caf\u00e9 em Erv\u00e1lia, Minas Gerais)<\/em><\/p>\n<p><em>Ave colendi amici Hariovaldis magister! N\u00e3o obstante o grave transe que vivemos exigir um texto em casti\u00e7o ciceroniano, rogo a v\u00eania dos ben\u00e9volos confrades e suas devotas e obedientes senhoras (por favor, pronuncie-se como s\u00f3i: senh\u00f4ra) para dirigir-me a v\u00f3s no vern\u00e1culo da Lusit\u00e2nia, por motivo de sincera e nunca sobeja homenagem ao Ermitam das Macah\u00fabas (assim gostava ele de grafar seu onom\u00e1stico, na saborosa norma setecentista), de boa mem\u00f3ria. Lembro dele as suav\u00edssimas e corajosas palavras de apoio \u00e0s pessoas do nosso estado (primeiro e segundo, claro est\u00e1; mas como esta p\u00e1gina pode ser lida na maior sem-cerim\u00f4nia por algum plebeu ignaro, j\u00e1 o advirto \u2013 c\u00e1spite!).<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o tergiverso: admito que a malta encastelada no Pal\u00e1cio e a servi\u00e7o daquela de que n\u00e3o se diz o nome \u2013 anathema sit! \u2013 de tudo tem feito para subverter as entranhas da ordem natural das coisas. Atrevidos, pretendem distribuir o quinh\u00e3o que nos toca entre a fera turba, ignorando por completo o princ\u00edpio teol\u00f3gico da pobreza. Quosque tandem, Bulgarica usurpatrix, abutere patientia nostra? N\u00f3s, que in saecula saeculorum temos suportado o fardo de guardar o cumprimento desse princ\u00edpio por havermos assumido a prote\u00e7\u00e3o da riqueza produzida por todos, somos agora vilipendiados com ataques e perora\u00e7\u00f5es in\u00edquas sobre uma tal \u201cconcentra\u00e7\u00e3o de renda\u201d, regra basilar das sociedades humanas. N\u00f3s, \u00f3 c\u00e9us, que evitamos que a exist\u00eancia dos pobres seja amea\u00e7ada.<\/em><br \/>\n<em> <\/em><\/p>\n<p><em>Nossos corajosos e impolutos av\u00f3s invocariam o sempre para n\u00f3s inevit\u00e1vel white man\u2019s burden. A prop\u00f3sito, sa\u00fade-se a coragem do presb\u00edtero Felix Anus, que sobre os filhos de Cam proferiu s\u00e1bias e muito pedag\u00f3gicas palavras; ave!<\/em><br \/>\n<em> Pois bem: \u00e9 chegado o momento de lembrar a esses ingratos que foram os nossos maiores que, deixando o alegre solo de Europa, h\u00e1 tr\u00eas s\u00e9culos vieram para estes tristes tr\u00f3picos sacrificarem-se para os arrancar das selvas em que viviam num deplor\u00e1vel estado de igualdade, e a come\u00e7ar a ensin\u00e1-los as regras b\u00e1sicas de civilidade e das distin\u00e7\u00f5es sociais. Noblesse oblige!<\/em><br \/>\n<em> A esse respeito, tomo do Ermitam as palavras de \u00e2nimo proferidas pouco antes de seu passamento em 2002 (os c\u00e9us dele se comiseraram e o levaram antes que pudesse horrorizar-se com os malfeitos do sucessor do augusto leader Fernando, o segundo deste nome \u2013 j\u00e1 que o segundo foi impelido a deixar o Pal\u00e1cio por cortes malquistadas):<\/em><br \/>\n<em> Coragem confrades! H\u00e1 limites para o caos! Os c\u00e9us preparam-nos o glorioso retorno \u00e0 ordem das coisas! Novos leaders (h\u00e1 inclusive um que se permite acompanhar at\u00e9 de curiosa r\u00eamora sa\u00edda do cora\u00e7\u00e3o das selvas \u2013 irque!; mas, fazer o qu\u00ea? \u00c9 o fardo que se suporta para alcan\u00e7ar a inexor\u00e1vel vit\u00f3ria final\u2026).<\/em><br \/>\n<em> <\/em><\/p>\n<p><em>Em defesa deste meu otimismo, ofere\u00e7o-vos prova irrefut\u00e1vel (e nem \u00e9 necess\u00e1rio descender como eu \u2013 permiti-me a humildade \u2013 da aristocracia ateniense \u2013 \u00f3 saudade \u2026): se nossos ancestrais ao longo de mais de dois mil e quinhentos anos v\u00eam suportando e sobrevivendo a invas\u00f5es de b\u00e1rbaros (por fim, todos domesticados), a Revolu\u00e7\u00f5es Francesas e a Comunas de Paris, por que n\u00e3o haveria de dar-se o mesmo conosco, que estamos lidando com uma gentalha que se expressa em um bororo tosqu\u00edssimo e sem sal? <\/em><\/p>\n<p><em>Se ainda falassem a l\u00edngua de Moli\u00e8re! Neste aspecto melhor est\u00e1 o Haiti. Quel horreur! <\/em><\/p>\n<p><em>Omessa! Brindemos \u00e0 vit\u00f3ria que se avizinha! Em breve seremos cumulados de justo regozijo por assistir \u00e0 defenestra\u00e7\u00e3o dos usurpadores, seu choro e ranger de dentes em merecido vale de l\u00e1grimas, e por fim ve-los-emos arengar: sic transit gloria mundi.<\/em><br \/>\n<em> Que ao final deste dia glorioso, permitamos \u00e0s nossas papilas gustativas aplaudirem de p\u00e9 a passagem de um single malt escoc\u00eas (18 anos pelo menos, por favor!) ou algum blended que se d\u00ea o respeito; talvez mesmo um Henessy V.O.P. (a edi\u00e7\u00e3o deste ano est\u00e1 realmente divinal; recomendo). Vale.&#8221;<\/em><\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reproduzo aqui a singela missiva que recebi do amant\u00edssimo irm\u00e3o Jean-Pierre, por julg\u00e1-la adequada para o presente momento que vivemos como testemunho de f\u00e9 e esperan\u00e7a no futuro da na\u00e7\u00e3o. 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